Da pequena Irecê ao movimento pulsante de São Paulo, o médico infectologista Vítor Cardoso carrega na bagagem dois compromissos que parecem distantes — mas que nele caminham lado a lado: salvar vidas e cantar para o mundo. Escorpiano, baiano, vascaíno e apaixonado pela arte, ele representa uma nova geração de profissionais da saúde que derrubam estereótipos, vestem sua verdade e transformam sua própria história em instrumento de cuidado, expressão e impacto social.
Nascido na Bahia, Vítor cresceu cercado de música, dança, celebração e humanidade – elementos que, hoje, se misturam à sua prática médica. A inspiração para seguir a medicina surgiu ainda na infância, quando testemunhou o carinho entre um pediatra e seus pacientes. Já o sonho de estar no palco brotou naturalmente, alimentado pela cultura baiana e pelo desejo de transbordar seu lado artístico.
Mas, além da vocação dupla, Vítor também carrega uma missão: combater o estigma que ainda envolve o HIV, especialmente dentro da comunidade LGBTQIA+. Para ele, informação é cura — e é tão poderosa quanto qualquer medicamento.
A seguir, ele fala sobre carreira, arte, preconceitos, prevenção e o que realmente significa viver com consciência sobre a própria saúde. Cura pela Informação.

HIV, tabus e informação: a cura começa pelo conhecimento.
Mesmo com avanços históricos na prevenção e no tratamento, a desinformação sobre HIV ainda é uma das maiores barreiras para o cuidado — especialmente dentro da comunidade LGBTQIA+.
Para Vítor, esse tabu persiste porque a informação não chega de forma simples, acessível e humana.
Você acha que ainda existe muito tabu quandose fala em HIV dentro da comunidade LGBTQIA+?
Sim! O conhecimento e o acesso à informação ainda é elitizado. Muitos setores onde a informação não chega de forma educativa e simples ainda acham que HIV transmite no beijo ou na privada, por exemplo.
Como médico infectologista, o que mais te incomoda na forma como as pessoas ainda
encaram o tema?
Me incomoda a associação entre ser uma pessoa vivendo com HIV e ser uma pessoa promíscua e descuidada.
O que você gostaria que todo mundo soubesse sobre prevenção e cuidado?
Que nossa saúde deve estar nas nossas mãos. Então, conheça os métodos de prevenção disponíveis, as vacinas, as profilaxias.
Qual a diferença entre ter medo e ter consciência sobre o HIV?
Temos medo do que não conhecemos. Quando se entende a transmissão, os métodos eficazes de prevenção e o excelente tratamento disponível e gratuito, não há por que ter medo.
A informação pode ser tão poderosa quanto um remédio?
A informação sempre é a resposta. Não adianta ter o remédio disponível e não ter a segurança de tomá-lo. O paciente consciente do seu tratamento é o mais dedicado de todos!
Qual o maior mito sobre HIV que você gostaria de desmentir de uma vez por todas?
Que somente gays e jovens se infectam com HIV. Qualquer pessoa que tenha uma exposição sexual sem uso de preservativos está suscetível à infecção.
Como o SUS e as novas formas de prevenção, como PrEP e PEP, mudaram o cenário da saúde sexual no Brasil?
Conseguimos, pela primeira vez na história, reduzir o número de casos novos de HIV e diminuir a transmissão vertical (da mãe para o filho). Isso se deve tanto à prevenção com a PrEP quanto ao diagnóstico e ao tratamento precoces.

