Nutricionista explica o que comer antes, durante e depois da folia para manter energia, evitar mal-estar e curtir sem sustos.
O Carnaval é um teste de resistência. São horas de sol, suor, multidões e copos que se sucedem mais rápido do que refeições. O resultado costuma ser previsível: enjoo, tontura, queda de pressão e aquele momento em que a festa acaba antes da música. Para o nutricionista Thiago Pereira, o problema não está na folia em si, mas na soma de desidratação, poucas refeições, excesso de álcool e noites mal dormidas.
Quando o corpo recebe pouco alimento e muito álcool, o risco de hipoglicemia e desidratação aumenta. O estômago, já irritado, ainda precisa lidar com frituras, salgadinhos e doces industrializados. “É um cenário perfeito para o mal-estar”, resume. Pessoas com gastrite, refluxo ou intestino sensível sentem isso ainda mais rápido — e, em muitos casos, sequer deveriam exagerar na bebida.
Antes do bloco: comer é parte do planejamento
Sair de casa sem comer é o primeiro erro. A recomendação é simples: refeição completa, como em um dia comum. Nada de fórmulas mirabolantes. Carboidrato e proteína seguem sendo a base mais eficiente para sustentar energia. Banana, aveia, tapioca, arroz, ovo e frango entram na lista sem esforço. Vitaminas, açaí com frutas e pratos leves ajudam a manter o ritmo sem pesar.
Quem come pouco se cansa rápido. Quem come mal, passa mal. Para quem sai cedo, o café da manhã vira etapa obrigatória do bloco. Fruta antes de beber ajuda, e o intervalo ideal entre a refeição e o primeiro copo é de pelo menos uma hora — tempo suficiente para o corpo entender que não está entrando em modo emergência.
Durante a folia: o que dá para controlar
No meio do bloco, improviso vira regra. Ainda assim, algum planejamento faz diferença. Levar castanhas ou amêndoas na pochete pode parecer detalhe, mas evita longos períodos sem comida. Já quando a opção é comer na rua, o ideal é escolher locais mais estruturados — padarias e restaurantes, por exemplo, que passam por fiscalização sanitária.
Milho cozido, cachorro-quente e sanduíches vendidos na rua oferecem maior risco de contaminação, especialmente quando combinados com muito álcool. E identificar comida mal conservada nem sempre é possível. O risco existe — e aumenta quando o corpo já está sobrecarregado.
A hidratação, por sua vez, não é negociável. Beber água junto com bebidas alcoólicas reduz o impacto da desidratação. Água de coco e isotônicos também entram como aliados, principalmente em dias de muito suor. Um sinal simples ajuda: urina clara indica que o corpo está conseguindo se equilibrar.
Um ponto que costuma passar despercebido é o gelo. Em muitos casos, ele é feito com água não potável ou armazenado de forma inadequada, o que aumenta o risco de contaminação cruzada. Sempre que possível, vale dar preferência a gelo industrializado e lacrado, vendido em sacos próprios para consumo. Gelo manipulado sem cuidado pode ser o suficiente para transformar um drink em dor de barriga.
Já a mistura de energético com álcool pede cuidado extra. O excesso de açúcar e cafeína pode sobrecarregar o organismo e representar risco, especialmente para o coração.
O álcool e seus efeitos
Beber de estômago vazio é receita conhecida para o desastre. Náusea, dor de cabeça e queda de pressão têm relação direta com a desidratação provocada pelo álcool. Bebidas não fermentadas costumam causar menos desconforto gastrointestinal, mas o maior problema é a quantidade ingerida — não a mistura.
Não existe um limite universalmente seguro para beber. O que existe é estratégia: comer ao longo do dia e manter a hidratação reduz os danos e aumenta as chances de atravessar a festa em pé.
Quando o corpo pede pausa
Alguns sinais são claros: fala arrastada, dificuldade de coordenação, perda da noção de perigo e confusão mental. Ao sentir náusea, tontura ou fraqueza, a orientação é parar de beber, se hidratar e observar. Se os sintomas persistirem, o caminho é procurar atendimento médico.
Comer depois de beber muito pode ajudar, desde que sejam alimentos leves e de fácil digestão. Remédios para enjoo não devem ser usados sem orientação, e soluções caseiras não substituem líquidos e repouso.
Sono, remédios e realidade
Dormir pouco e comer mal cobra seu preço. É durante o sono que o corpo tenta se reorganizar após os excessos. Quem usa medicação contínua deve seguir as recomendações médicas à risca e ter atenção redobrada com o consumo de álcool.
Entre blocos diurnos e festas noturnas, a diferença principal é o sol e a duração do esforço físico — fatores que exigem ainda mais cuidado com comida e hidratação.
No fim das contas
O maior erro alimentar do Carnaval é apostar nas frituras. A dica mais simples segue sendo a mais eficiente: refeições completas, líquidos em abundância, atenção à procedência do gelo e respeito aos próprios limites. Cuidar do corpo não é sair da festa — é garantir que ela dure até o último refrão.

