MULLIGANS (2008): QUANDO O VERÃO VIRA PONTO DE RUPTURA

Lançado em 2008 e dirigido por Chip Hale, Mulligans é um daqueles filmes que operam no território do silêncio — onde o que não é dito pesa mais do que qualquer diálogo explícito. À primeira vista, ele pode parecer apenas mais um drama LGBTQIA+ sobre descoberta, mas existe uma camada mais desconfortável e interessante aqui: o desejo atravessando estruturas familiares, rompendo códigos e expondo fragilidades que estavam latentes.

A trama acompanha Tyler (interpretado por Charlie David), um jovem universitário que aceita passar o verão com a família de seu melhor amigo, Chase (Derek Baynham). O cenário é clássico: uma casa de veraneio, natureza, dias longos e aparentemente despreocupados. Mas essa atmosfera idílica começa a rachar quando Tyler revela que é gay — e, mais do que isso, quando uma tensão inesperada surge entre ele e o pai de Chase, Nathan (Dan Payne).

É nesse ponto que Mulligans se diferencia. Em vez de seguir um caminho mais previsível sobre aceitação ou romance juvenil, o filme mergulha em um terreno mais ambíguo e incômodo. A relação entre Tyler e Nathan não é construída como fantasia, mas como conflito: um jogo de repressão, curiosidade e desejo que desafia não só a estrutura daquela família, mas também a forma como a masculinidade é performada ali dentro.

O roteiro trabalha com tensões sutis — olhares prolongados, silêncios carregados, pequenas quebras de comportamento — criando uma atmosfera quase claustrofóbica, mesmo em um cenário aberto e ensolarado. Existe uma inversão interessante: enquanto o verão sugere liberdade, o que vemos é um ambiente emocional cada vez mais sufocante.

Ao mesmo tempo, o filme não escapa de certas limitações. Em alguns momentos, os personagens orbitam arquétipos conhecidos — o jovem em processo de afirmação, o pai em crise, a família em desintegração — e algumas resoluções soam abruptas. Ainda assim, Mulligans se sustenta pela proposta: explorar o desejo como força desestabilizadora, especialmente quando ele atravessa espaços onde não deveria existir.

Visualmente, o filme aposta em uma estética limpa e naturalista, quase como um registro íntimo de férias. Isso reforça a sensação de realidade e aproxima o espectador daquela dinâmica desconfortável, como se estivéssemos presenciando algo que não deveríamos ver. Não há glamourização — e isso é um acerto.

No fim, Mulligans é menos sobre identidade e mais sobre limite. Sobre o momento em que o desejo deixa de ser interno e passa a afetar o mundo ao redor. E, principalmente, sobre o que acontece quando ninguém está preparado para lidar com isso.

É um filme que não entrega respostas fáceis — e talvez seja exatamente por isso que permanece relevante.

Descubra mais sobre UNICORNS ZINE

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo