Durante anos, os aplicativos de relacionamento, especialmente o Grindr, redefiniram a forma como homens gays se encontram, se desejam e se relacionam. A promessa sempre foi direta: acesso imediato, infinitas possibilidades e conexão sem esforço.
Mas essa lógica começa a mostrar sinais claros de desgaste.
Cresce uma sensação silenciosa, quase coletiva, de cansaço. Não é a falta de opções que incomoda, e sim o excesso delas. Abrir o aplicativo virou um gesto automático. Rolar perfis, repetir conversas, trocar mensagens que não levam a lugar nenhum e desaparecer sem explicação passaram a fazer parte de uma rotina que se repete todos os dias.
Tudo acontece rápido demais e, ao mesmo tempo, vazio demais.
O desejo continua ali, mas cada vez mais mediado por uma interface. Ele passa por filtros, fotos escolhidas com estratégia, descrições que performam uma versão idealizada de si. O encontro deixa de ser espontâneo e se transforma em uma negociação silenciosa entre expectativas.
A dinâmica dos aplicativos transformou o flerte em catálogo. Corpos são organizados por proximidade, idade e padrão estético. A escolha acontece em segundos e o descarte é ainda mais rápido.
Esse processo não é neutro. Ele molda a forma como as pessoas se enxergam. A comparação se torna constante, a sensação de substituição é imediata e a ansiedade passa a fazer parte da experiência. Sempre existe a impressão de que há alguém mais interessante, mais bonito ou mais desejável a poucos metros de distância.
O resultado é um paradoxo evidente. Nunca estivemos tão conectados, mas a sensação de solidão parece cada vez mais presente.
Esse fenômeno já é reconhecido como burnout de aplicativos. Não significa que as pessoas estão abandonando essas plataformas, mas indica uma mudança na forma como elas se relacionam com esse ambiente. O uso continua, mas acompanhado de frustração, cansaço e uma consciência maior sobre seus efeitos.
Essa dinâmica já começa a ser refletida na cultura — e também na literatura.
No livro Tem Local?, do André Machado, essa experiência ganha forma narrativa. A obra reúne 20 contos que funcionam como um verdadeiro “pink mirror” das relações contemporâneas, onde cada história opera como um encontro imprevisível. Assim como nos aplicativos de pegação, você nunca sabe exatamente o que vai encontrar pela frente. Cada conto é uma surpresa.

Entre reviravoltas, humor ácido e situações desconfortavelmente familiares, o leitor transita por emoções que vão do riso à angústia, da vergonha alheia à identificação imediata. As histórias são inspiradas em fragmentos de casos reais, mas tratadas com sarcasmo e um olhar crítico sobre o comportamento afetivo no universo digital.
O livro também expande essa experiência para além da leitura tradicional. Com elementos multimídia, inclui QR Codes ao longo dos contos que aprofundam a imersão e revelam camadas adicionais da narrativa, criando uma experiência mais interativa e inesperada.
Apesar de lidar com temas espinhosos, a leitura se mantém leve, fluida e provocativa. É um retrato direto, cheio de referências ao mundo contemporâneo dos encontros gays, mas também uma crítica afiada à forma como nos relacionamos hoje.
Mais do que observar, o livro expõe. E talvez por isso seja tão incômodo quanto familiar.
Ao mesmo tempo, começam a ganhar força outras formas de encontro. Espaços mais físicos e coletivos, como festas menores, grupos de esporte e comunidades presenciais, voltam a ocupar um lugar importante. Nesses contextos, o corpo deixa de ser apenas imagem e volta a existir com presença, tempo e troca real.
Isso não aponta necessariamente para o fim dos aplicativos, mas revela uma mudança de percepção. A relação com essas plataformas deixa de ser ingênua e passa a ser mais crítica.
No fundo, a questão não é tecnológica. É emocional.
O que as pessoas estão realmente buscando ali?
E, mais importante, ainda é possível encontrar?
O livro Tem Local?, de André Machado, estará em breve disponível na loja da Unicorns Zine.

