Mais uma vez, homens gays viram pauta policial, sensacionalista e moralista na televisão brasileira. Desta vez, a narrativa gira em torno de encontros íntimos marcados em banheiros de shopping na zona sul de São Paulo. A reportagem, construída em tom de denúncia e choque, transforma algo complexo em espetáculo rápido para consumo público: imagens escuras, vozes distorcidas e a velha sensação de que existe algo “errado” acontecendo longe dos olhos da sociedade.
Mas talvez a pergunta mais interessante não seja sobre o banheiro.
Talvez seja sobre o motivo de, em 2026, o desejo entre homens ainda despertar tanto fascínio, vigilância e indignação coletiva.
Existe um incômodo histórico quando corpos masculinos escapam das normas tradicionais de comportamento. Principalmente quando esse desejo acontece fora dos espaços considerados “aceitáveis”, higienizados ou monetizados. Porque o mesmo imaginário que condena encontros anônimos em espaços públicos é o que alimenta filmes, aplicativos, fetiches, séries, pornôs e toda uma cultura construída em torno do proibido.
Nada disso significa ignorar questões importantes sobre segurança, consentimento ou uso coletivo dos espaços. Existe uma diferença evidente entre liberdade sexual e desrespeito ao espaço público. Mas transformar homens adultos em personagens de uma narrativa quase criminal também revela outra camada: a necessidade constante de controlar corpos dissidentes através da vergonha.
Historicamente, banheiros, saunas, parques e espaços urbanos sempre foram territórios de encontro para homens gays, principalmente em períodos em que viver afetos livremente significava risco social, violência ou expulsão familiar. Antes dos aplicativos, antes da possibilidade de existir publicamente, muitos desses lugares eram também espaços de reconhecimento, desejo e sobrevivência emocional.
O curioso é perceber como certas coberturas midiáticas continuam presas numa estética dos anos 90: sombras, suspense, sensacionalismo e moralidade implícita. Como se a simples existência do desejo gay ainda precisasse ser enquadrada como desvio social.
Enquanto isso, a internet segue transformando intimidade em conteúdo diariamente. O privado virou algoritmo. O fetiche virou mercado. O anonimato virou estética. E talvez seja justamente essa contradição que a televisão ainda não consiga processar completamente: a sociedade consome o desejo masculino o tempo todo, mas continua desconfortável quando ele deixa de ser fantasia e ocupa o mundo real.
No fundo, a discussão nunca é apenas sobre sexo em banheiro.
É sobre quem pode desejar livremente sem virar manchete.

