QUANDO O ROSA INVADIU O FUTEBOL

Quem assistiu aos jogos da Copa do Mundo de 2026 provavelmente percebeu um detalhe curioso. Em diferentes seleções, usando marcas concorrentes, alguns dos principais jogadores do planeta pareciam ter combinado um acessório: chuteiras cor-de-rosa.
À primeira vista, a explicação parece simples. Segundo executivos da indústria esportiva, o rosa cria um contraste eficiente com o gramado verde, tornando o atleta mais visível para quem acompanha a partida pela televisão, pelas arquibancadas ou pelos replays em câmera lenta.
A justificativa faz sentido. O curioso é que ela não explica tudo.
Nike, Adidas, Puma, New Balance e Skechers são empresas que competem por contratos milionários, atletas globais e espaço no mercado. Ainda assim, chegaram praticamente à mesma conclusão ao mesmo tempo, lançando produtos muito parecidos para o maior evento esportivo do planeta.
A pergunta talvez não seja por que as chuteiras são rosas.
A pergunta é por que todas ficaram rosas ao mesmo tempo.
A resposta pode estar longe dos gramados.
Existe uma indústria bilionária dedicada a prever o futuro do consumo. Empresas especializadas analisam comportamento, moda, cultura, redes sociais, tecnologia e mudanças geracionais para identificar quais cores, estilos e narrativas terão força nos anos seguintes. Entre elas está a WGSN, uma das maiores referências mundiais em previsão de tendências.
Em 2024, quando as coleções da Copa de 2026 já estavam sendo planejadas, uma das apostas da agência era o chamado Electric Fuchsia, um rosa vibrante apresentado como símbolo de energia, confiança e destaque visual.
O resultado apareceu dois anos depois.
As marcas esportivas não precisaram copiar umas às outras. Elas apenas consultaram as mesmas fontes, analisaram os mesmos dados e responderam às mesmas expectativas de mercado.
É um fenômeno interessante porque mostra que o futebol está cada vez mais conectado ao universo da moda.
Durante décadas, o esporte tentou se diferenciar desse território. Enquanto a moda era vista como expressão individual, o futebol valorizava uniformidade, tradição e desempenho. Hoje, os dois mundos caminham juntos.
As camisas de clubes se transformaram em peças de streetwear. Jogadores frequentam semanas de moda. Campanhas esportivas dividem espaço com editoriais de luxo. E as chuteiras passaram a funcionar como um dos poucos elementos capazes de expressar identidade individual dentro de um uniforme coletivo.
Talvez seja por isso que o rosa tenha causado tanto debate.
Não porque seja uma cor inédita. Nem porque represente alguma ruptura radical. Mas porque continua sendo uma cor capaz de provocar reações em um ambiente historicamente marcado por códigos muito rígidos de masculinidade.
Enquanto isso, dentro das quatro linhas, os jogadores seguem fazendo o que sempre fizeram: correr atrás da bola.
A diferença é que agora fazem isso usando um dos maiores símbolos de uma tendência global que começou muito antes do apito inicial.
E talvez essa seja a parte mais interessante da história.
As chuteiras não ficaram rosas por causa do futebol.
O futebol é que acabou acompanhando uma tendência que já estava mudando o mundo ao seu redor.

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