por Olavo Martins
Criador do Sebo do Hit e pesquisador da história das revistas masculinas, Lucas Hit conversa com a Unicorns Zine sobre colecionismo, memória, Playboy, G Magazine e a experiência insubstituível de folhear uma publicação impressa.

Antes de existir a Unicorns Zine, existiu uma criança fascinada pelas revistas que chegavam à sua casa.
Minha relação com o universo editorial começou ainda na infância, por influência do meu irmão, que assinava diferentes publicações. Eu lia tudo o que aparecia pela frente. Eram as capas, os editoriais, as entrevistas, as fotografias e a possibilidade de conhecer outros mundos por meio daquelas páginas.
Algumas edições se tornaram parte da minha memória afetiva. A Playboy de Cleo Pires foi a mais marcante e teve influência direta no meu desejo de me tornar fotógrafo. Até hoje, ela permanece guardada ao lado das edições de Grazi Massafera e Fernanda Young — revistas das quais não abro mão.

Essa paixão atravessou minha trajetória. Tornei-me fotógrafo, criei minha própria publicação e, anos depois, tive a oportunidade de fotografar Nico Puig, um dos rostos mais emblemáticos da história da G Magazine. De alguma maneira, criar a Unicorns Zine também foi uma forma de dar continuidade àquilo que as revistas despertaram em mim: o desejo de produzir imagens, contar histórias e registrar o nosso tempo.

Foi justamente essa identificação que me levou ao perfil de Lucas Hit. Capixaba de Piúma, ele coleciona revistas há 28 anos e transformou uma coleção iniciada na adolescência em um dos maiores sebos online especializados em publicações impressas do país.
O Sebo do Hit reúne atualmente mais de 9 mil revistas de diferentes épocas e de mais de 20 países. Lucas também pesquisa a história das publicações masculinas e já transformou esse conhecimento em livros.
Nossas trajetórias são diferentes, mas partem de um sentimento parecido: para quem cresceu esperando uma revista chegar, folhear suas páginas nunca foi apenas consumir conteúdo. Era descobrir o mundo — e, muitas vezes, descobrir a nós mesmos.
A seguir, Lucas conversa com a Unicorns Zine sobre memória, colecionismo, erotismo, cultura LGBTQIA+ e a resistência das revistas físicas em um mundo cada vez mais digital.
Para começarmos, conte um pouco sobre você e sobre o trabalho que desenvolve atualmente.
Sou Lucas Hit, capixaba de Piúma, tenho 41 anos e coleciono revistas há 28. Hoje, meu trabalho é o Sebo do Hit, um sebo online que comercializa revistas físicas. Tenho mais de 9 mil títulos disponíveis e trabalhar com revistas é minha paixão absoluta.
Já publiquei cinco livros e tenho outros dois confirmados para este ano, todos voltados para a história das revistas masculinas.
Você se lembra da primeira revista que despertou sua curiosidade ou vontade de colecionar?
A primeira revista masculina que vi foi a edição da Playboy de Karmita Medeiros, em 1991. Eu tinha seis anos e lembro que, mesmo com pouca idade, a revista inteira despertou minha curiosidade — muito além de ver uma mulher nua.
Demorei a entender como uma “revista de mulher pelada” precisava de tantos textos, entrevistas enormes e textos literários.
O desejo de colecionar surgiu mesmo em 1998, quando virei fã da Adriane Galisteu e quis juntar as revistas que traziam ela na capa. Começou pela Playboy e depois conheci a VIP, a Interview e, nesse caminho, praticamente todas as revistas do mercado editorial brasileiro daquela época. Mas as masculinas sempre foram minhas preferidas.
Como nasceu sua paixão pelas revistas impressas?
Na infância e na adolescência, eu era aquele ratinho de biblioteca. Trocava facilmente o recreio e a aula de educação física para ficar descobrindo livros e lendo.
Quando encontrei as revistas, descobri um tipo de leitura que me agradava mais. Era dinâmica, rápida, reunia diferentes assuntos e, claro, fotografias. Muito rapidamente, troquei os livros pelas revistas.
No início, lia publicações como Veja, IstoÉ e Época. Meu foco eram as matérias sobre história, arte, celebridades, música, cinema, novelas, geografia, mundo animal e comportamento. Eu pulava mesmo eram as páginas de política.
Pegar uma dessas revistas nas mãos — lembrando que eram publicações semanais — era como assistir a um telejornal que apresentava notícias sobre tudo e sobre o mundo inteiro.
Em que momento essa paixão se transformou na ideia de criar um sebo online?
Durante a pandemia, eu já tinha mais de 20 anos de colecionismo e uma coleção com aproximadamente 2 mil revistas.
Nessa época, recebi uma proposta de trabalho em Rondônia e no Acre. Era impossível não aceitar. Fui com a intenção de morar lá para sempre e minhas revistas ficaram guardadas na casa da minha mãe, no Espírito Santo. Eu planejava levá-las para o Norte posteriormente.
O trabalho não deu certo. Não foi por minha causa; havia pessoas ruins na administração e fui vítima de abuso emocional, algo que nunca havia acontecido na minha vida. Logo na primeira situação, decidi voltar para o Espírito Santo.
Como era o auge da pandemia, fiquei sem trabalho. A única maneira que encontrei de ter alguma renda foi vender minha coleção pelo Instagram. Foi assim que abri o Sebo do Hit.
Não foi desapego. Foi desespero mesmo, porque eu não tinha dinheiro nem para comprar uma paçoca. Como já fazia parte de uma comunidade de colecionadores, foi fácil encontrar pessoas interessadas nas minhas revistas.
Deu tão certo que se transformou no meu trabalho. O Sebo do Hit me sustenta até hoje.
Como você encontra e seleciona as publicações que entram no seu acervo?
Hoje, quase diariamente, aparecem pessoas querendo vender suas coleções para mim. Faz anos que não preciso mais procurar acervos para comprar; eles chegam naturalmente.
Com o trabalho que venho desenvolvendo há quase seis anos, construí uma boa reputação entre os colecionadores. Sempre que aparece um lote interessante, eu compro, mesmo sem precisar aumentar meu estoque, que atualmente ultrapassa 9 mil revistas disponíveis.
O que torna uma revista especialmente valiosa: a raridade, a capa, o conteúdo, o estado de conservação ou a memória que ela carrega?
Tudo isso conta. Mas, quando falamos de revistas masculinas, o que mais pesa é quem protagoniza o ensaio principal e quem é a mulher da capa.
Quais são as revistas mais procuradas atualmente?
Disparadamente, a Playboy. Ela é a maior e mais importante revista masculina do mundo. A publicação teve 497 edições no Brasil, então existe muita história e paixão envolvida entre os colecionadores.
Depois dela, as mais procuradas são Ele Ela, Sexy, G Magazine, Status e VIP.
Existe alguma capa ou edição que todo colecionador sonha em encontrar?
A Playboy mais famosa do Brasil é a da Xuxa. Quem tem essa edição na coleção faz questão de ostentar, e quem não tem costuma dizer que sonha em encontrá-la.
É a mais famosa, mas não necessariamente a mais rara ou cara. Dentro do universo das revistas, existem edições específicas de cada título que são verdadeiros objetos de desejo.
Qual foi a publicação mais rara ou surpreendente que já passou por suas mãos?
Em 2010, quando Cleo Pires foi capa da edição de 35 anos da Playboy, a redação produziu uma versão em capa dura para presentear as equipes que trabalharam nos ensaios e colaboraram com aquela superedição.
Foram apenas 100 exemplares impressos e numerados. Essa versão nunca foi comercializada. Somente quem trabalhou na edição recebeu a revista de capa dura, que ainda trazia o logotipo dourado. Era uma coisa espetacular.
Com o tempo, tornou-se objeto de desejo dos colecionadores mais emocionados. Como foram produzidos poucos exemplares, é raríssimo encontrar um deles. Já tive três em minhas mãos e vendi todos pelo meu sebo.
Outra edição surpreendente é a Playboy de Hong Kong de janeiro de 1988, com a brasileira Luma de Oliveira na capa. Quando segurei essa revista, tremi inteiro.
Existe alguma revista do seu acervo que você não venderia por nenhum valor?
As revistas da minha coleção de Adriane Galisteu são as únicas das quais não me desfiz. Não adianta oferecer nenhum valor porque não vendo.
O que uma revista antiga consegue revelar sobre a sociedade e a época em que foi publicada?
Pegar uma revista publicada há 50 ou 60 anos é surpreendente. Tudo reflete a época da publicação. Existe, claro, uma evolução editorial, mas cada década está muito bem representada em seus impressos.
Falando de machismo, por exemplo: todas as revistas masculinas foram machistas e algumas de maneira absolutamente extrema. Mas, dos anos 1970 para cá, é possível observar certa “evolução” dos homens em relação a isso.
Gosto muito da revista Ele Ela. Quando foi lançada, em 1969, era apresentada como uma leitura para o casal heterossexual. Mas, quando olhamos suas matérias, chega a dar raiva. Em resumo, a revista ensinava a mulher a ser uma boa esposa e a permanecer magra e bonita. Ao homem, ensinava a ganhar dinheiro, ostentar carros e até mesmo trair a esposa.
Moda, comportamento, música, erotismo e cultura LGBTQIA+ sempre tiveram uma relação muito forte com as revistas. Quais publicações você considera fundamentais para preservar essa memória?
A primeira revista gay que vi foi uma Sui Generis. Acho que era uma edição com Ney Latorraca na capa. Lembro de ficar chocado ao descobrir ali que ele era gay.
Nos anos 1990, eu também estava me descobrindo. A Sui Generis foi a primeira publicação do gênero que encontrei e considero a revista espetacular. Infelizmente, tivemos poucas publicações assim.
Claro que a G Magazine foi a mais popular entre elas. Para mim, é uma revista histórica e foi a que permaneceu por mais tempo.
Para muitos integrantes da nossa comunidade nos anos 1990 — e para mim também —, foi o primeiro lugar em que encontramos conteúdos sobre saúde, cultura, teatro e televisão com abordagens pensadas especificamente para homens gays.
Como você enxerga a importância histórica de revistas como a G Magazine para a visibilidade e o imaginário do homem gay brasileiro?
Existia um padrão, e eu não gosto de nenhum tipo de padrão. Digo isso em relação aos homens que posavam: ou eram musculosos ou eram “lolitos”. Sem contar que mais de 80% dos homens que apareciam nus nas fotografias eram heterossexuais.
Isso não tira o mérito da revista. Apenas não concordo com essas escolhas, embora entenda que eram outros tempos para nossa comunidade. Eu não comprava essa ideia.
Quem procura essas publicações hoje: leitores antigos movidos pela nostalgia ou uma geração mais jovem descobrindo esse universo?
Acho que nunca vendi uma revista física para alguém com menos de 30 anos. Não tem como fugir: é o público com mais de 35 anos que valoriza o impresso e guarda memórias das bancas, das livrarias cheias e da televisão anunciando quem estava nas capas.
Somos a última geração que viu as bancas de revistas, fazia assinaturas e recebia as publicações mensalmente em casa. Também somos a geração que não pode deixar essa história ser esquecida.
Você percebeu um novo interesse pelas revistas impressas nos últimos anos?
Absolutamente. Está tudo tão digital e existem tantas telas que ter uma revista física nas mãos se tornou uma experiência sensorial que nenhuma leitura digital consegue proporcionar.
Tenho conhecido muitas pessoas que voltaram a colecionar. Um cliente de Belo Horizonte me contou que colecionou Playboy durante as décadas de 1980 e 1990. Depois que se casou, sua mulher jogou todas as revistas fora. Há cinco anos, ele se separou e começou a coleção novamente.
Hoje entendemos que essas revistas são documentos. Elas guardam nossa história e nossas memórias. Mesmo com uma quantidade gigantesca de conteúdo disponível na internet, desafio alguém a encontrar tudo o que foi publicado nas revistas das décadas anteriores. Não está disponível.
Os direitos autorais das editoras não permitem que todo esse material permaneça online, o que faz com que as revistas físicas se tornem documentos ainda mais importantes.
Quer ler a entrevista de Lula publicada na Playboy de julho de 1979? Você não vai encontrá-la facilmente na internet. Será necessário comprar uma revista física. O mundo das revistas é palpável. São verdadeiros documentos e, por isso, sempre existirá interesse por eles.
Em uma época dominada pelas redes sociais, o que ainda torna a experiência de folhear uma revista tão especial?
Por volta de 2008, as editoras começaram a vender suas revistas também em formato digital. Foi justamente o período em que quase todas as editoras e revistas do Brasil começaram a desaparecer.
Duvido que algum colecionador de verdade comprasse apenas a revista digital. Arrastar o dedo por uma tela nunca substituirá o toque do papel ou o cheiro de uma revista recém-retirada do plástico.
São experiências de uma geração. Aprendemos assim. Fui um adolescente que lia Veja, Nova, Caras, Playboy e G Magazine. Hoje, vivemos outra relação com a leitura, marcada por conteúdos muito mais curtos e rápidos.
Existe diferença emocional entre guardar uma publicação física e salvar uma imagem ou matéria no celular?
Tenho observado que alguns colecionadores fazem questão de ter materiais digitais porque não possuem espaço para armazenar uma coleção física. Esse é um ponto importante: manter uma coleção de revistas exige espaço, tempo e dinheiro. Não é tão simples.
Mas já ouvi histórias de pessoas que mudaram de casa para armazenar melhor suas coleções. Você pode perguntar a dez colecionadores de revistas físicas: provavelmente todos montaram um espaço exclusivo em casa para guardar ou expor suas publicações.
Isso é emocional. Aquela estante conta a história da vida do colecionador e não pode ser comparada a uma imagem salva no celular.
O que perdemos quando tantas revistas deixaram de circular?
Muitas coisas. Para mim, uma das maiores perdas foi o hábito da leitura. Sinto que lia muito mais quando tinha uma pilha com sete ou dez revistas novas por mês.
Por outro lado, quando uma revista deixa de circular, suas edições anteriores imediatamente se tornam icônicas e históricas.
É muito difícil manter uma revista física com periodicidade regular hoje. Não é por falta de público — meu sebo vende uma média de 300 revistas por mês —, mas pelos custos necessários para manter uma redação, produzir conteúdo e imprimir em uma gráfica.
Você acredita que publicações independentes e zines estão ocupando parte do espaço deixado pelas grandes revistas?
Claro. Qualquer iniciativa que mantenha esse trabalho vivo, até mesmo em formato exclusivamente digital, é válida. Eu apoio muito.
Quais cuidados você recomenda para quem deseja começar ou preservar uma coleção?
Guardar as revistas individualmente em sacos plásticos é o segredo para mantê-las intactas por muito tempo.
Mas confesso que prefiro que a coleção continue acessível e possa ser manuseada. Para mim, revista é feita para ser vista — e não apenas uma vez. Esses saquinhos também dão um trabalho enorme.
Se pudesse escolher qualquer edição do mundo para incluir em seu acervo, qual seria?
A primeira edição da Playboy, publicada em dezembro de 1953, com Marilyn Monroe na capa. Gostaria de ter um exemplar original daquela época.
Qual capa representa melhor sua paixão pelas revistas?
A capa de Karmita Medeiros, de 1991. Aquele sorriso enorme na fotografia é convidativo e feliz. Até porque um colecionador de Playboy é feliz.
Depois de conviver com tantas publicações, o que as revistas ensinaram sobre memória, imagem e passagem do tempo?
As revistas me formaram. Cresci em uma casa na qual não se conversava sobre relacionamentos, sexo ou assuntos desse tipo. Encontrei nas revistas o que precisava saber.
Hoje, elas são o meu trabalho e sinto que estou fazendo aquilo que mais amo no mundo. Compreendo a importância histórica de cada edição e meu propósito de vida é preservar essa história.
Onde as pessoas podem conhecer seu acervo, acompanhar seu trabalho e comprar as revistas?
Todo o meu acervo está disponível no site sebodohit.com.br. São mais de 9 mil revistas, com edições publicadas em mais de 20 países. No site, também é possível conhecer meus livros e acompanhar o trabalho de preservação da história das revistas.

