QUANDO NOSSOS CORPOS VIRAM PALANQUE

Em ano eleitoral, pessoas LGBT voltam a ocupar o centro de vídeos, boatos e discursos moralistas. Do Ibirapuera às redes sociais, uma velha estratégia política ganha novas câmeras, novos algoritmos e os mesmos alvos.

Existe uma cena que parece se repetir a cada eleição brasileira.

Muda o candidato, muda a rede social, muda a palavra da vez. Em um ano é o chamado “kit gay”. Em outro, banheiros, crianças, identidade de gênero, pessoas trans ou performances artísticas. Agora, em 2026, até encontros entre homens em áreas afastadas de um parque público se transformaram em conteúdo político.

O mecanismo é parecido: encontrar um comportamento, uma pessoa ou uma pauta ligada à população LGBTQIA+, apresentá-la como ameaça aos valores da sociedade e oferecer indignação como produto eleitoral.

Não se trata de dizer que toda crítica a comportamentos de pessoas LGBT seja homofóbica ou que orientação sexual coloque alguém acima da lei. Trata-se de perguntar por que, em determinados momentos, nossos corpos, nossas relações e nossa existência voltam a ser escolhidos como matéria-prima para campanhas de medo.

E, principalmente, quem ganha politicamente com isso.

O Ibirapuera como cenário eleitoral

Nos últimos meses, uma região do Parque Ibirapuera tradicionalmente conhecida como ponto de encontros entre homens passou a aparecer em vídeos produzidos por comunicadores, influenciadores e personagens ligados à direita.

Um dos episódios que mais repercutiram aconteceu em junho. O então pré-candidato a deputado federal Gabriel Piauhy, do PL de São Paulo, entrou à noite em áreas escuras do parque acompanhado de outras pessoas e de uma lanterna, abordando e filmando homens que estavam no local. Reportagens registraram que o conteúdo ultrapassou 100 mil visualizações e mostrava pessoas sendo surpreendidas pela gravação.

Poucos dias antes, o ex-deputado estadual Ulysses Moraes também havia divulgado uma incursão ao parque ao lado de criadores de conteúdo conservadores, classificando o que teria encontrado como uma “orgia a céu aberto”.

E o assunto não desapareceu. Em junho e novamente em agosto, o programa Balanço Geral Manhã, da Record, levou câmeras ao Ibirapuera para mostrar denúncias envolvendo sexo em áreas isoladas, além de problemas de segurança como roubos, furtos e tráfico.

Há uma questão objetiva que não deve ser omitida: atos sexuais praticados em local público podem ser enquadrados no artigo 233 do Código Penal, que pune ato obsceno em lugar público, aberto ou exposto ao público. O debate não precisa negar isso.

Mas existe outra pergunta.

Se há uma infração, cabe a um candidato entrar no mato com câmera e lanterna para expor cidadãos na internet?

A fiscalização de um espaço público é responsabilidade das autoridades competentes. Quando a abordagem deixa de ter apenas finalidade de segurança pública e passa a ser transformada em vídeo, cortes, thumbnails e engajamento eleitoral, surge uma dimensão diferente: o espetáculo moral.

E esse espetáculo possui um público muito específico.

O cruising também não surgiu em 2026. A prática de encontros sexuais anônimos em espaços públicos possui uma longa relação histórica com a vida gay, especialmente em períodos nos quais homens homossexuais não tinham espaços seguros para se encontrar ou precisavam esconder sua sexualidade. Especialistas ouvidos pelo UOL e pela Veja Saúde lembram que isso não torna atos públicos legais, mas ajuda a explicar por que a prática possui uma dimensão histórica que vai além da caricatura de “promiscuidade gay”.

O problema é quando uma infração individual deixa de ser discutida como infração individual e passa a funcionar como representação de uma comunidade inteira.

A câmera encontra sempre os mesmos corpos

Existe uma diferença entre denunciar um ato e transformar determinado grupo social em espetáculo.

Um casal heterossexual fazendo sexo em um carro pode cometer um ato obsceno. Um homem gay fazendo sexo atrás de uma árvore também.

Mas quando a segunda situação é apresentada repetidamente como evidência de decadência moral associada a uma identidade sexual, deixamos o terreno da segurança pública e entramos no território do pânico moral.

O conceito é utilizado nas ciências sociais para descrever momentos em que grupos, comportamentos ou fenômenos são apresentados como ameaças desproporcionais aos valores ou à segurança da sociedade. Em campanhas políticas, esse tipo de narrativa pode ser particularmente eficiente porque transforma questões complexas em histórias simples: existem os “cidadãos de bem” e existe alguém supostamente ameaçando sua família, suas crianças ou sua maneira de viver.

No Brasil, sexualidade e gênero já cumpriram esse papel outras vezes.

Estudos citados pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral sobre a desinformação nas eleições brasileiras apontam que uma das narrativas falsas de maior circulação em 2018 foi justamente a história do chamado “kit gay”, que alcançou mais de um milhão de menções nas redes.

Ou seja: transformar questões LGBT em instrumento eleitoral não começou no Ibirapuera.

O que mudou foi a linguagem.

Antes, uma corrente de WhatsApp. Hoje, uma lanterna, um celular e um vídeo de poucos segundos preparado para circular no Instagram, TikTok ou X.

Quando a mentira também vira palanque

Outro episódio recente ajuda a entender como funciona essa engrenagem.

Em agosto, o ator Nico Puig anunciou que tomaria medidas judiciais após o pastor Flávio Amaral, que se apresenta publicamente como “ex-travesti” e afirma ter abandonado a homossexualidade depois de uma conversão religiosa, declarar que teria mantido relações com Nico e também citar os atores Leonardo Vieira e Rodrigo Santoro.

Nico negou a narrativa e afirmou que sua trajetória estava sendo utilizada para promoção pessoal e política. Segundo reportagem publicada pelo Pheeno, o ator informou que levaria o caso à Justiça.

É importante fazer a distinção jornalística: a existência das declarações do pastor é um fato verificável. A veracidade dos relacionamentos que ele afirma ter vivido não está estabelecida e foi expressamente negada por Nico Puig.

É justamente aí que está o problema.

Uma narrativa pessoal passa a incorporar pessoas famosas, sexualidade, religião e uma suposta transformação de “antes” e “depois”. O resultado é poderoso nas redes porque reúne elementos perfeitos para viralização: celebridade, sexo, escândalo, pecado e redenção.

E há ainda uma questão científica incontornável.

Homossexualidade não é doença.

A Resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia proíbe profissionais da Psicologia de tratar práticas homossexuais como patologia e veta iniciativas profissionais destinadas à chamada “cura gay”.

Portanto, uma pessoa tem absoluta liberdade para mudar religião, comportamento, identidade ou maneira de viver sua sexualidade. O que não encontra respaldo científico é transformar a homossexualidade em enfermidade da qual alguém teria sido “curado”.

Erika Hilton e a fábrica contemporânea de transfobia

Talvez nenhum caso de 2026 mostre tão claramente essa dinâmica quanto o de Erika Hilton.

Após tornar-se, em março, a primeira mulher trans a presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, Erika passou a enfrentar uma sequência de conteúdos falsos e ataques relacionados à sua identidade de gênero.

Uma montagem que imitava o site da CNN Brasil afirmava falsamente que ela teria sido hospitalizada por uma “torção testicular”. A AFP verificou que a manchete havia sido manipulada. Somadas, publicações relacionadas à mentira chegaram a mais de 1,8 milhão de interações, segundo a agência.

A Agência Lupa chegou à mesma conclusão: o título original da CNN tratava da eleição de Erika para a presidência da comissão e havia sido digitalmente alterado para produzir a falsa notícia.

Depois surgiram outras invenções. Publicações afirmaram falsamente que Erika teria sido expulsa da Comissão da Mulher e atingida por ovos. O UOL Confere novamente demonstrou que a história era falsa.

Em agosto, com a campanha eleitoral oficialmente em curso, a própria Justiça Eleitoral determinou que o vereador e candidato a deputado federal Lucas Pavanato, do PL de São Paulo, retirasse um vídeo contendo ataques contra Erika. A decisão considerou, entre outros pontos, alegações falsas apresentadas no conteúdo e a dimensão discriminatória da publicação.

Não estamos mais diante apenas de comentários anônimos de internet.

A identidade de uma pessoa trans vira instrumento de disputa política.

Não é apenas impressão

Há dados que mostram que sexualidade e identidade de gênero efetivamente aparecem na violência política brasileira.

Relatório do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania sobre o enfrentamento ao discurso de ódio registra que candidatos pertencentes a grupos historicamente minorizados recebem ataques relacionados à orientação sexual e à raça e aponta a recorrência de ofensas homofóbicas e transfóbicas durante períodos eleitorais. O documento também registra episódios envolvendo candidatos LGBTQIA+ nas eleições de 2020, 2022 e 2024.

Outro levantamento sobre violência política eleitoral mostrou que ameaças, atentados e ofensas representaram 69% dos ataques documentados no período eleitoral de 2022. Mulheres cis, travestis e mulheres trans concentraram 38% dos registros de ataques motivados politicamente naquele período.

O problema também ultrapassa as eleições.

Dados oficiais do Disque 100 continuam registrando violações contra a população LGBTQIA+, e o próprio Ministério dos Direitos Humanos afirma que há crescimento contínuo dos registros relacionados a violência motivada por orientação sexual e identidade de gênero.

Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal determina que práticas de homofobia e transfobia sejam enquadradas nos tipos penais previstos na Lei do Racismo enquanto o Congresso não aprovar legislação específica sobre o tema.

Estamos, portanto, falando de uma população cuja vulnerabilidade à discriminação não é uma percepção subjetiva de militantes. É uma realidade reconhecida por pesquisas, órgãos públicos e pelo sistema judicial brasileiro.

O algoritmo recompensa o escândalo

Existe ainda outro personagem nessa história: as plataformas.

Uma incursão ao Ibirapuera não termina no parque. Ela começa ali.

O produto real vem depois: vídeo, título, corte, reação, compartilhamento, indignação, comentário e seguidores.

A política contemporânea aprendeu que conflito produz atenção.

E atenção produz alcance.

Uma reportagem publicada durante a atual campanha mostrou outro caso recente dessa estratégia: o deputado estadual Diego Castro, do PL da Bahia, entrou na Universidade Federal da Bahia acompanhado de sua equipe para produzir conteúdo relacionado a propaganda eleitoral. O episódio terminou em confronto com estudantes e foi posteriormente explorado nas redes.

Os temas são diferentes, mas a gramática é semelhante: entrar em um território identificado como adversário, provocar ou registrar um conflito, posicionar-se diante da câmera e transformar a reação em narrativa política.

No caso das pessoas LGBT, porém, existe um agravante.

É possível sair de um vídeo político e continuar a vida normalmente.

Para alguém que não assumiu sua sexualidade no trabalho ou diante da família, ser filmado em um ponto conhecido de encontros entre homens pode produzir consequências que vão muito além daquela gravação.

Exposição não é abstração.

Pode significar outing, humilhação, perda de emprego, rompimento familiar ou violência.

Não precisamos defender tudo para defender todos

Também existe uma armadilha para a própria comunidade LGBT.

Diante de campanhas moralistas, pode surgir a sensação de que precisamos defender automaticamente qualquer comportamento praticado por uma pessoa LGBT.

Não precisamos.

É perfeitamente possível afirmar ao mesmo tempo que sexo explícito em local público pode constituir crime e que candidatos não deveriam utilizar a exposição de pessoas LGBT como espetáculo eleitoral.

É possível cobrar segurança no Ibirapuera e questionar por que um pré-candidato precisa levar uma câmera até o local.

É possível respeitar a conversão religiosa de alguém e rejeitar a ideia sem respaldo científico de “cura” da homossexualidade.

É possível criticar Erika Hilton politicamente sem negar sua identidade de gênero ou fabricar notícias falsas sobre seu corpo.

Essa talvez seja a distinção que o pânico moral tenta apagar.

A questão nunca foi exigir imunidade para pessoas LGBT.

É exigir igualdade.

Toda eleição precisa de um inimigo?

Em campanhas polarizadas, criar um inimigo é uma ferramenta poderosa.

Ele concentra medos difusos. Simplifica problemas complexos. Oferece ao eleitor alguém para responsabilizar.

Durante décadas, pessoas LGBT foram transformadas em ameaça à família, às crianças, à religião e aos costumes.

Depois de tantas conquistas — casamento civil, reconhecimento jurídico, maior presença na televisão, nas empresas e no Congresso — seria possível imaginar que essa estratégia estivesse perdendo força.

Os acontecimentos de 2026 mostram que ela apenas mudou de formato.

O “kit gay” virou vídeo vertical.

O panfleto virou Reels.

O púlpito ganhou algoritmo.

E homens escondidos entre árvores num parque podem se transformar, em poucos minutos, em conteúdo para uma campanha eleitoral.

É por isso que precisamos olhar para essas imagens com mais atenção.

Talvez o verdadeiro assunto não seja o que duas pessoas estavam fazendo no escuro.

Talvez seja entender por que tanta gente precisa acender uma câmera sobre nós justamente quando começa uma eleição.

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