Existe um tipo de personagem que não apenas atravessa a noite — ela a define. Nicole Verywell é uma dessas figuras raras: uma drag que nasceu do improviso, se consolidou no excesso e, sem pedir licença, se tornou parte da memória afetiva da cena LGBTQIA+ de São Paulo.
Antes de qualquer definição, Nicole Verywell aparece aqui como sempre foi: performática, referencial e absolutamente consciente da própria imagem. Para este ensaio, ela incorpora Elvira, sua personagem favorita, em uma homenagem que mistura humor, fetiche e cultura pop – pelas lentes de Olavo Martins.
Autodefinida como “uma tia muito rica e muito louca de Higienópolis”, Nicole mistura referências improváveis — de Hebe Camargo a Dercy Gonçalves — com uma acidez que nunca perde o timing. Fofa quando quer, cáustica por natureza, ela construiu uma persona que equilibra deboche, inteligência e uma leitura quase cirúrgica da sociedade ao redor.
Mas como toda grande personagem, Nicole não nasceu pronta. Ela emergiu do acaso.
O nascimento de uma figura
Foi em um baile de carnaval na Barra Funda que Nicole Verywell deu seus primeiros passos. “Um vestido dourado discutível e um sonho”, como ela mesma resume. O nome carrega uma mistura de glamour e erro — o “Nicole” inspirado em Nicole Kidman na época de De Olhos Bem Fechados, e o “Verywell” fruto de um mal-entendido auditivo de uma música de Guilherme Arantes.
O que começou como brincadeira rapidamente ganhou corpo. Entre o caos pessoal, o humor ácido e uma disciplina quase obsessiva (“como boa taurina, só sei trabalhar”), Nicole deixou de ser apenas uma persona e virou profissão. E mais do que isso: virou capital simbólico e financeiro.

Entre o anonimato e o excesso
Por trás da maquiagem existe uma figura que prefere o anonimato. “A drag amplifica quem sou, mas não invade meu espaço”, diz. Essa separação é fundamental para entender a longevidade de Nicole: ela não é uma fuga da realidade, mas uma extensão controlada dela.
Antes da noite, a vida era outra. Terno, gravata, IBM e coral de igreja. Um contraste que ajuda a explicar a complexidade da personagem — Nicole carrega em si fragmentos de todos os ambientes por onde passou.
E talvez seja isso que a torna tão magnética: ela transita. Entre classes sociais, entre códigos, entre mundos. De festas de elite a encontros marginais, de banqueiros a figuras à margem da lei, Nicole viu — e viveu — um Brasil que poucos conseguem acessar com tanta fluidez.

Uma testemunha da transformação da noite
Quando Nicole começou, nos anos 90, a noite LGBTQIA+ paulistana era menor, mas intensamente vibrante. Menos segmentada, mais caótica. “Tinha cheiro de gin, cigarro e o álbum Erotica, da Madonna”, relembra.
Os polos eram claros: centro e Jardins. E, no meio disso, uma comunidade mais coesa, ainda que marcada por divisões simples — estética e classe.
Hoje, ela reconhece avanços importantes: mais visibilidade, mais espaço para drags no mainstream, mais senso de comunidade. Mas também aponta uma perda: a espontaneidade. “Falta o desbunde. Hoje tem mais cartilha.”
Essa tensão entre liberdade e formatação talvez seja o grande dilema da cena contemporânea.

Histórias que viram lenda
A trajetória de Nicole é pontuada por episódios que parecem ficção, mas são pura noite paulistana. De encontros inesperados com figuras icônicas a festas surreais — como uma pool party na casa de Hebe Camargo — sua memória é um arquivo vivo de uma cidade que nunca dorme.
E há também momentos históricos, como assistir a um dos primeiros shows de RuPaul em São Paulo. “Ali eu entendi o que era ser drag”, diz. “E percebi meu tamanho dentro disso tudo.”
Drag como provocação
Para Nicole, a drag nunca foi apenas entretenimento. Existe um papel político — mas não no sentido didático ou moralizante. “A drag é anárquica, disruptiva. Não tem rabo preso.”
Ela rejeita a ideia de manual. Prefere a provocação, o desconforto, o riso como ferramenta. E, acima de tudo, a liberdade de existir sem precisar justificar cada gesto.
O encontro com o Unicorns
A história de Nicole ganha um novo capítulo quando cruza com o Unicorns Brazil. O encontro aconteceu em 2018, de forma despretensiosa, mas rapidamente se transformou em vínculo.
Hoje madrinha do projeto, ela enxerga no coletivo algo que vai além do esporte: pertencimento. “É um grupo que acredita num sonho e luta junto. Tem poder maior?”
Momentos como a abertura da Ligay, com coreografia ao som de “This Is Me”, marcaram profundamente sua relação com o time. “Foi emocionante. Ali tem verdade.”
Para ela, o Unicorns representa exatamente o que São Paulo tem de melhor: diversidade, união e a capacidade de transformar espaços em territórios de acolhimento.

Entre a persona e o silêncio
Quando a maquiagem sai, Nicole desaparece. Literalmente. Vira mais um rosto na multidão — alguém que passa despercebido na fila do banco ou caminhando pelo centro.
Esse contraste é parte essencial do personagem. A grandiosidade da drag só existe porque há um espaço de recolhimento fora dela.
Mas nem tudo é glamour. Há obsessões, hiperfocos, manias. Perfumes, por exemplo, já foram objeto de estudo quase acadêmico. Nicole é, no fundo, uma personagem construída com rigor — mesmo quando parece puro improviso.

Permanecer
Depois de mais de três décadas de estrada, Nicole já viveu de tudo. Ainda assim, segue em movimento — com projetos como o podcast LactoVacilos e o desejo de voltar à televisão.
Para a nova geração, seu conselho é simples: leveza. “Não se levem tão a sério.”
E para a comunidade, uma frase que resume sua filosofia:
“Voltem a ser alegres. A alegria é uma arma poderosa. Ria mais e discuta menos.”
Em uma cidade onde tudo muda o tempo todo, talvez seja essa a maior permanência de Nicole Verywell: lembrar que, no fim, o riso ainda é o gesto mais radical.

