Entre a pista e o silêncio, o DJ paulistano entra em uma fase de amadurecimento, revisita a própria trajetória e prepara um novo capítulo atravessado por referências, memória e intenção
Existe um momento na trajetória de todo artista em que o movimento deixa de ser expansão e passa a ser depuração. Menos sobre fazer mais e mais sobre entender o que fica. Para Pedro Gariani, esse momento não chegou como ruptura, veio como um deslocamento interno, silencioso, quase imperceptível de fora, mas definitivo por dentro. Às vésperas de embarcar para a Europa, ele não fala em virada, fala em amadurecimento. “Estou buscando uma espécie de reset. O último ano foi muito intenso e eu precisava renovar as energias para abrir espaço para novas ideias” . A fala não carrega urgência, carrega consciência. Depois de anos operando no ritmo acelerado da noite, entre sets, produção de eventos, curadoria, construção de comunidade e uma pressão constante por entrega, Gariani entende que parar também é movimento, e talvez o mais estratégico deles.
Esse novo momento também se materializa visualmente. Para esta capa, Pedro Gariani posou em um ensaio exclusivo fotografado por Olavo Martins, reforçando a dimensão estética que sempre atravessou sua trajetória e consolidando a imagem como parte indissociável de sua construção artística.
A viagem que se aproxima não nasce de uma demanda de carreira, nasce de um desejo mais raro no circuito eletrônico contemporâneo, o de observar. Ir a festivais, ouvir, circular, estudar, absorver, sem a obrigação de performar. “É mais sobre experiência de vida. A ideia agora é viver, observar e me permitir ser atravessado por novas experiências” . Essa escolha revela um entendimento mais sofisticado do próprio processo criativo, especialmente em um momento em que o DJ deixou de ser apenas alguém que toca para se tornar alguém que performa constantemente sua própria existência. E isso cobra. Gariani reconhece esse desgaste sem dramatizar, mas também sem romantizar. A necessidade de se afastar surge como estratégia para voltar com mais clareza, mais repertório e mais intenção.

ORIGEM, COMO TUDO COMEÇOU
Diferente de muitos artistas que entram na música pela técnica, Pedro Gariani entrou pela observação. Antes da cabine, existia um blog. Em um momento em que a cena paulistana começava a se reorganizar com coletivos como Gop Tun e Selvagem, ele assumiu o papel de quem documenta. Organizava agendas, escrevia sobre festas, mapeava movimentos e ajudava a estruturar uma narrativa sobre o que estava acontecendo na cidade. “Eu não entrei diretamente pela cabine. Entrei pela curiosidade, pela pesquisa e pela vontade de comunicar” . Essa origem explica muito da forma como ele constrói seus sets hoje. Não como uma sequência de músicas, mas como uma construção narrativa que exige repertório, leitura de pista e sensibilidade.
Ele não lembra exatamente quais músicas tocou no primeiro set, mas lembra da sensação. Nervosismo, ansiedade e uma tentativa quase obsessiva de prever a reação da pista. Passou a noite anterior sem dormir, pensando na ordem das músicas e imaginando o comportamento das pessoas. Esse impulso de antecipar o coletivo continua presente, mas hoje com outra camada, mais madura e menos ansiosa.



CONSTRUÇÃO, TRAJETÓRIA ATÉ AQUI
Ao contrário da narrativa comum da indústria, não existe um único momento em que tudo deu certo. A trajetória de Gariani foi construída em micro validações, degrau por degrau. Ainda assim, alguns marcos funcionam como símbolos, como tocar no Tomorrowland Brasil ou perceber o crescimento da Cardume, sua label, especialmente após a festa de um ano na Praça Ramos de Azevedo. Ali, ficou claro que não se tratava apenas de tocar, mas de criar um ecossistema. A Cardume abriu portas e consolidou a possibilidade de uma carreira que não depende apenas da cabine, mas também da capacidade de criar experiências, formar comunidade e desenvolver curadoria.



IDENTIDADE SONORA
Se existe uma chave para entender Pedro Gariani como artista, ela está na forma como ele enxerga o som. Sua base está no house e no disco, mas seu compromisso não é com gênero, é com narrativa. “Não é só sobre tocar uma música forte atrás da outra. É sobre criar um caminho, construir tensão, liberar energia e conduzir a pista por diferentes atmosferas” . Essa abordagem o conecta a uma linhagem histórica da música eletrônica que entende a pista como experiência coletiva, não como vitrine individual, com referências que vão de Frankie Knuckles a Laurent Garnier, passando pela energia e irreverência de Fatboy Slim e Bob Sinclar. Mas Gariani não replica referências, ele metaboliza e traduz essas influências em uma linguagem própria.
REFERÊNCIAS E ESTÉTICA
Antes da música, veio a moda, e essa referência continua presente, mesmo que de forma menos explícita. A estética não aparece como um acessório, mas como parte da construção de linguagem. Ela atravessa a forma como ele se posiciona, como constrói imagem, como pensa seus projetos e como comunica sua identidade. Na música eletrônica, som e imagem caminham juntos, e Gariani entende isso como estrutura, não como superficialidade.
Sua relação com a cena gay também é central nesse processo. A cultura clubber, o house e o disco têm raízes profundas na experiência queer, e essa herança aparece na forma como ele entende a pista como espaço de liberdade, encontro e construção de comunidade.

CENA, VISÃO CRÍTICA
Ao mesmo tempo em que reconhece uma cena mais diversa e descentralizada hoje, Gariani também aponta para desafios estruturais. A pista mudou. O celular e as redes sociais transformaram o comportamento, diminuindo o anonimato e criando uma camada constante de observação. Ainda assim, quando a pista realmente acontece, ela continua sendo um dos poucos espaços onde a coletividade se manifesta de forma genuína, criando uma suspensão temporária da realidade.



BASTIDORES
Existe um lado invisível nesse processo que raramente é discutido. A pesquisa musical ocupa uma parte significativa do trabalho. Um set de uma hora e meia pode levar dias de preparação, envolvendo escuta, organização e tentativa de entender qual história será contada naquela noite. Além disso, existe a dimensão emocional, que envolve autocobrança, expectativa e comparação. Gariani reconhece que essa tensão faz parte do processo e que aprender a equilibrar ambição com presença é essencial para sustentar uma trajetória consistente.



O QUE VEM DEPOIS
Pedro Gariani não está em busca de validação, essa etapa já aconteceu. O que ele busca agora é intenção. Mais clareza sobre o que quer construir, mais profundidade na forma como se expressa e mais consciência sobre o impacto do seu trabalho. A viagem para a Europa é apenas um dos movimentos dentro desse processo maior, um deslocamento que aponta para uma fase mais autoral e mais alinhada com suas próprias referências. No fim, a palavra que define esse momento é amadurecimento, e na música eletrônica amadurecer não significa desacelerar, significa escolher melhor para onde ir.



