Em abril de 1978, em plena ditadura militar, chegava às bancas brasileiras uma publicação que mudaria para sempre a história da comunicação LGBTQIA+ no país.
Chamado Lampião da Esquina, o jornal nasceu em um período em que a população LGBTQIA+ raramente era retratada com dignidade pela grande imprensa. Quando aparecia, quase sempre era através de estereótipos, preconceitos ou simplesmente do silêncio.
Mais do que um jornal, o Lampião foi uma resposta à invisibilidade.
Seu surgimento representou um marco histórico para uma comunidade que, até então, tinha poucos espaços para discutir livremente temas como sexualidade, direitos civis, cultura, política e cidadania.
O Lampião da Esquina foi idealizado por um conselho editorial formado por algumas das vozes mais importantes da intelectualidade brasileira da época. Entre seus fundadores estavam Aguinaldo Silva, João Silvério Trevisan, Darcy Penteado, Jean-Claude Bernardet, Peter Fry, João Antônio Mascarenhas, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata, Antônio Chrysóstomo, Clóvis Marques e Adão Costa.
Aguinaldo Silva, que mais tarde se tornaria um dos mais importantes autores da televisão brasileira, foi um dos principais articuladores do projeto. Já João Silvério Trevisan consolidaria seu nome como um dos maiores escritores e ativistas LGBTQIA+ do Brasil. Juntos, eles ajudaram a construir uma publicação que se tornaria referência para toda uma geração.
Com uma linha editorial ousada para a época, o jornal abordava assuntos que dificilmente encontravam espaço nos grandes veículos de comunicação. Em suas páginas, leitores encontravam discussões sobre direitos humanos, comportamento, cultura, política, sexualidade e os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ brasileira.
Em um país ainda marcado pela censura e pela repressão, publicar aquelas histórias era um ato de coragem.
O Lampião também se destacou por ampliar o debate para além da questão homossexual, abrindo espaço para reflexões sobre racismo, desigualdade social, feminismo e outras pautas ligadas aos direitos humanos. Seu compromisso era com a pluralidade de vozes e com a construção de uma sociedade mais democrática.
Naturalmente, essa postura teve consequências.
O jornal passou a enfrentar perseguições, pressões políticas e tentativas de intimidação. Seus editores foram investigados e constantemente atacados por setores conservadores da sociedade. Ainda assim, continuaram publicando.
A existência do Lampião da Esquina ajudou milhares de brasileiros a perceberem que não estavam sozinhos.
Muito antes das redes sociais, dos aplicativos e dos algoritmos, eram publicações como essa que criavam conexões, promoviam pertencimento e fortaleciam uma identidade coletiva.
As capas reproduzidas nesta matéria não são apenas peças gráficas históricas.
São documentos de uma época em que existir publicamente como pessoa LGBTQIA+ já era um gesto político.
São registros de pessoas que decidiram ocupar espaços que lhes eram negados e contar suas próprias histórias.
Décadas depois, o mundo mudou.
As bancas perderam espaço para os smartphones.
Os jornais impressos deram lugar aos sites, podcasts, newsletters, revistas digitais e redes sociais.
Mas a necessidade de produzir narrativas próprias continua exatamente a mesma.
É nesse contexto que surge a Unicorns Zine.
Assim como o Lampião buscava registrar a vida, os desafios, os afetos e as conquistas de uma comunidade frequentemente ignorada pela mídia tradicional, a Unicorns Zine nasceu com o propósito de documentar experiências LGBTQIA+ contemporâneas através da fotografia, do esporte, da cultura, da moda, da saúde e do comportamento.













Não somos o Lampião da Esquina.
São tempos diferentes.
São formatos diferentes.
São desafios diferentes.
Mas compartilhamos uma convicção fundamental: comunidades precisam ter voz própria.
Recentemente, essa importância foi reconhecida em uma reportagem da Agência Experimental de Jornalismo da PUC-SP intitulada “Vozes Contra-hegemônicas Lutam por Reconhecimento”, que destacou iniciativas independentes dedicadas à construção de espaços de representação e pertencimento para grupos historicamente marginalizados. Entre elas, a Unicorns Zine foi citada como exemplo contemporâneo de mídia produzida por e para a comunidade LGBTQIA+.
Esse reconhecimento reforça algo que o Lampião já demonstrava há quase cinquenta anos: quando uma comunidade decide contar a própria história, ela deixa de ser apenas objeto de narrativa e passa a ser protagonista dela.
Se o Lampião ajudou uma geração a se enxergar nas páginas de um jornal impresso, talvez a missão da Unicorns Zine seja ajudar uma nova geração a se enxergar nas telas de hoje.
Porque tecnologias mudam.
Formatos mudam.
Plataformas mudam.
Mas a importância de registrar nossas histórias permanece.
E toda vez que uma comunidade encontra sua própria voz, algo do espírito do Lampião da Esquina continua vivo.

