Enquanto boa parte das conquistas da população LGBTQIA+ costuma ser celebrada nas ruas, nos palcos ou nas redes sociais, existe uma outra frente de batalha que acontece longe dos holofotes: os tribunais, os parlamentos e as instituições que moldam as regras da sociedade.
É justamente nesse espaço que Rafhael Romero Bentos construiu uma trajetória que ultrapassou as fronteiras do Brasil.
Advogado, mestre em Direito Tributário pela USP, mestre em Taxation pela Universidade de Oxford e atual Co-Chair do Comitê LGBTQIA+ da International Bar Association (IBA), uma das maiores associações jurídicas do mundo, com cerca de 90 mil membros distribuídos em dezenas de países, Rafhael se tornou uma das vozes mais influentes na defesa da inclusão LGBTQIA+ dentro das carreiras jurídicas e dos espaços de poder.
Seu trabalho internacional tem como objetivo ampliar oportunidades, fortalecer políticas de diversidade e garantir que profissionais LGBTQIA+ tenham acesso a ambientes mais seguros e representativos dentro do universo jurídico. O reconhecimento por essa atuação veio de forma consistente: nos últimos seis anos, Rafhael figurou entre as 100 pessoas LGBTQIA+ mais influentes do mundo, sendo destaque na categoria Outstanding Role Model, alcançando a 17ª posição na edição mais recente do ranking.
Mas sua atuação não se limita ao cenário internacional.
Aliado de longa data do Unicorns Brazil e defensor ativo da cidadania LGBTQIA+, Rafhael publicou nesta semana um artigo na Folha de S.Paulo que traz uma reflexão importante sobre o papel das eleições de 2026 para o futuro dos direitos da comunidade no Brasil.
No texto, ele chama atenção para um fato muitas vezes ignorado: grande parte das conquistas LGBTQIA+ no país não foi resultado de leis aprovadas pelo Congresso Nacional, mas de decisões do Poder Judiciário. Segundo Rafhael, “o Congresso Nacional nunca aprovou uma lei federal especificamente dedicada à proteção da população LGBTQIA+” e, por isso, direitos fundamentais acabaram sendo garantidos por decisões do Supremo Tribunal Federal.
Para ele, embora essas decisões tenham sido fundamentais, elas não representam uma proteção definitiva. Afinal, interpretações judiciais podem mudar ao longo do tempo. É por isso que ele defende a necessidade de transformar direitos reconhecidos pelos tribunais em garantias legais permanentes.
Outro ponto destacado por Rafhael é a baixa representatividade LGBTQIA+ no Congresso Nacional. Em seu artigo, ele lembra que, desde a Constituição de 1988, apenas um senador e doze deputados federais assumidamente LGBTQIA+ ocuparam cadeiras no Parlamento brasileiro. Para ele, menos representatividade significa menos vozes defendendo pautas essenciais para a comunidade.
Mas talvez a principal mensagem do texto seja um convite à maturidade política. Rafhael argumenta que não basta votar em candidatos LGBTQIA+ apenas por sua identidade. É preciso avaliar propostas concretas, compromisso institucional e capacidade de transformar demandas históricas em políticas públicas efetivas. Entre os temas que ele considera prioritários estão a criminalização específica da LGBTfobia, políticas nacionais de saúde protegidas por lei, regras estáveis para retificação de documentos e o reconhecimento expresso do casamento homoafetivo no Código Civil.
Sua reflexão parte de uma ideia simples, mas poderosa: direitos fundamentais não deveriam depender da alternância de governos nem da boa vontade de maiorias momentâneas. Como escreve no encerramento do artigo, a qualidade de uma democracia pode ser medida pela forma como ela trata aqueles que nem sempre fazem parte da maioria.
Em um momento em que o debate público frequentemente se resume a slogans e polarizações, a trajetória de Rafhael Romero Bentos mostra que representatividade também pode ser construída através da técnica, da articulação institucional e da defesa consistente dos direitos humanos.
Se nas quadras, nos eventos e nas ruas o Unicorns Brazil ajuda a criar espaços de pertencimento para a comunidade LGBTQIA+, profissionais como Rafhael atuam em outra frente igualmente importante: garantindo que esses espaços também sejam protegidos pela lei.
E talvez seja justamente essa combinação entre visibilidade, participação e cidadania que continue movendo as próximas conquistas da comunidade LGBTQIA+ no Brasil e no mundo.

