REVIEW | À PAISANA (PLAINCLOTHES)

Há filmes LGBTQIA+ que falam sobre amor. Outros falam sobre preconceito. À Paisana consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas de uma forma que incomoda — e esse é justamente seu maior mérito.

Ambientado nos anos 1990, o filme apresenta Lucas, um policial infiltrado encarregado de seduzir homens gays para prendê-los por “conduta indecente”. O que começa como mais uma missão acaba se transformando em um conflito devastador quando ele desenvolve sentimentos reais por Andrew, um dos homens que deveria entregar à polícia.

Mais do que uma história de romance, À Paisana é um retrato da violência institucionalizada contra pessoas LGBTQIA+. A perseguição não acontece apenas nas ruas, mas também dentro da mente de quem aprendeu que desejar alguém do mesmo sexo era algo a ser escondido.

Visualmente, o filme chama atenção pela fotografia granulada, pelas mudanças de formato da imagem e por uma direção que transmite a constante sensação de ansiedade do protagonista. Essas escolhas podem dividir opiniões, mas reforçam a atmosfera de paranoia e repressão.

As atuações de Tom Blyth e Russell Tovey sustentam toda a narrativa. A química entre os dois é construída de maneira delicada, sempre atravessada pelo medo. Cada encontro carrega a possibilidade de afeto e, ao mesmo tempo, de destruição.

O terceiro ato talvez seja seu ponto mais controverso, optando por um caminho mais melodramático do que o restante da obra. Ainda assim, isso não diminui o impacto emocional de um filme que nos lembra que, há poucas décadas — e em alguns lugares ainda hoje — existir como homem gay podia ser motivo suficiente para ser perseguido pelo Estado.

Nota da Unicorns Zine: ★★★★☆ (4,5/5)

À Paisana é um drama sensível, tenso e necessário. Não é um filme fácil de assistir, mas é impossível terminar a sessão sem refletir sobre o quanto da liberdade conquistada hoje foi construída por pessoas que viveram sob medo constante. É uma obra que fala sobre memória, identidade e resistência — temas que continuam profundamente atuais.

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