Em novo romance, Lucas Miolla atravessa Brasil e Índia para falar de amor, memória, luto e das marcas que permanecem quando uma história chega ao fim
O que permanece de uma relação quando a pessoa que amamos já não está mais aqui? É a partir dessa ausência que Lucas Miolla constrói O Que Vem Depois da Glória, seu quarto romance, uma história que transforma o luto em deslocamento e coloca uma jovem fotógrafa brasileira diante de uma viagem que é, ao mesmo tempo, geográfica e emocional.
A protagonista é Ana Terra, fotógrafa de Guaianases, na periferia de São Paulo. Após a morte de Mohit, seu companheiro indiano, ela decide atravessar o mundo em busca de uma misteriosa relíquia deixada por ele. O destino é o Rajastão, no norte da Índia, mas aquilo que começa como uma busca por algo concreto logo se torna uma investigação sobre o próprio homem que ela amou e sobre tudo aquilo que uma relação deixa para trás.
Guiada pelo enigmático Sr. Moushtaq, Ana entra em contato com as contradições da história de Mohit enquanto, do outro lado do mundo, precisa lidar com o agravamento da saúde de sua mãe no Brasil. Entre passado e presente, pertencimento e deslocamento, a personagem percebe que algumas fronteiras não estão apenas desenhadas nos mapas.

Entre Brasil e Índia
A Índia não funciona apenas como cenário do romance. A história atravessa também as cicatrizes deixadas pela Partição da Índia, processo que, em 1947, deu origem ao Paquistão e provocou deslocamentos em massa, violência e rupturas cujas consequências continuam presentes na memória de milhões de famílias.
É nesse território marcado por separações que Miolla constrói uma ponte com a experiência de sua protagonista. A fronteira histórica encontra a fronteira íntima. O que aconteceu com países, famílias e gerações passa a dialogar com aquilo que acontece quando duas pessoas se separam pela morte.
Essa dimensão intercultural amplia O Que Vem Depois da Glória. Mais do que uma história romântica sobre a ausência de alguém, o livro parece interessado em investigar o que fazemos com as lembranças, os afetos e as versões que construímos daqueles que fizeram parte de nossa vida.
O próprio autor levou para a ficção parte de sua experiência na Índia. Fotografias realizadas por Miolla durante sua passagem pelo país foram incorporadas ao romance e, dentro da narrativa, passam a pertencer a Ana, que é fotógrafa. O recurso aproxima autor e personagem e cria uma interessante sobreposição entre documento e ficção, experiência e memória.
“Essa viagem transformou minha percepção sobre o tempo, a memória e os vínculos que construímos”, conta Miolla. Segundo o escritor, os encontros com pessoas cujas histórias ainda carregavam as marcas da Partição ajudaram a construir uma percepção que atravessa todo o romance: mesmo quando algo termina, permanecem “a saudade, a dor, o amor”.
Uma fotógrafa como protagonista
Para a Unicorns Zine, há algo especialmente interessante na escolha de Ana Terra como fotógrafa. Fotografar também é uma tentativa de preservar aquilo que inevitavelmente passa. Uma imagem interrompe o tempo, guarda um corpo, um lugar, um encontro. Mas nunca consegue devolver completamente aquilo que registra.
Essa relação entre fotografia e memória parece encontrar no romance um terreno natural. Ana viaja atrás de uma relíquia deixada pelo companheiro enquanto carrega consigo lembranças e imagens. No fundo, procura reconstruir alguém a partir dos vestígios que restaram.
E talvez esteja justamente aí uma das perguntas mais interessantes propostas pelo livro: até que ponto conhecemos verdadeiramente quem amamos e quanto dessa pessoa é também uma construção feita pelas nossas próprias lembranças?
Escrever para atravessar fronteiras
Paulistano, Lucas Miolla começou a criar histórias ainda criança, aos oito anos, quando escrevia e distribuía semanalmente suas próprias histórias em quadrinhos. Hoje, vê a literatura como seu principal propósito e constrói uma obra marcada pela combinação entre prosa introspectiva e pesquisa intercultural.
Antes de O Que Vem Depois da Glória, publicou O Poeta Binário, Cobra versus Águia e Espectro. No novo trabalho, esse interesse por identidade, memória e pertencimento ganha uma dimensão ainda mais ampla ao conectar a periferia de São Paulo ao outro lado do mundo.
No título do romance já existe uma provocação. A glória sugere ápice, conquista, algo que desejamos alcançar. Miolla parece mais interessado na pergunta seguinte: e depois?
Depois do amor, existe memória. Depois da perda, existe transformação. Depois de uma fronteira, existe outro território.
E, algumas vezes, é justamente quando uma história parece ter terminado que outra começa.

